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segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Cet obscur objet du désir

Após a conversa, Nina saiu da mesa de jantar, partindo desesperadamente para o seu quarto, refúgio aonde se infiltrava ultimamente para se asfixiar em lágrimas. Mais uma crise, mais um momento onde só ela podia se salvar. Mas ela realmente queria isso? Por que se salvar? Para que? Vozes, infinitas, vinham lhe perturbar. Todas falando ao mesmo tempo, numa força que ela jamais pensaria suportar. Ela se contorcia na cama, num choro interno e agonizante.

"Você perdeu todo seu tempo com futilidade"
"Eu te amo, nunca mais vou te deixar na minha vida, nunca"
"Tenha paciência"
"O medicamento vai te ajudar, confia em mim"
"Levanta, pára de se fazer de vítima"
"Você está sozinha, ninguém te entende."
"Eu não aguento mais, todo dia é a mesma coisa, essa menina não toma jeito"
"Você não vai mudar enquanto não parar de sentir pena de si mesma"
"Arranhe mais forte, isso é tudo que você consegue?"
"Não há espaço pra você neste mundo"

Seu choro surdo se tornou então soluçante, gritando e cortando o ar. Nocauteando todas as feridas do peito e arranhando a garganta, na tentativa vaga de estourar as cordas vocais e aliviar a dor da alma.

Pensou em finalmente acabar com tudo de vez. Não ter mais que chorar, não ter mais que sofrer, não ter mais que se levantar para viver mais um dia de tortura. Ela se via sem saída, sem esperanças, sem sentido. Fechou os olhos e planejou ficar assim até a eternidade: não iria mais comer, levantar, nem fazer mais nada. Só ficar deitada ali, sozinha, alheia.

Sobre suas costas, a mão da pessoa que ela mais amava pousou. Viu em seu rosto a preocupação. A vontade de ajudar e a incapacidade. Uma pessoa que pegaria pra si, sem pensar duas vezes, todo o sofrimento de Nina. Aquele rosto tão bonito e sofrido, daquela que só queria seu bem. Nina também lhe queria muito bem, a amava tanto que seu coração se destroçava quando pensava na possibilidade de fazê-la sofrer.

"Se você me deixar, não sei o que será de mim" lia-se no rosto dela.

Nina olhou no fundo dos olhos da mãe e sentiu um aperto no peito. Ela não tinha mais aquele sentimento de júbilo e segurança que sentia com sua mãe, sua mente lhe roubou isso. Parece irônico, algo que faz parte da gente e ao mesmo tempo, pode controlar a gente de uma forma auto-destrutiva.

Mas, como aontece as vezes na vida, não se sabe como nem porque, mas o amor naquele coração de mãe foi capaz de salvá-la de todas as sombras que a impediam de ver uma luz no horizonte. E foi a partir das cinzas de uma casa destruída que Nina recomeçou a reconstruir lentamente a sua vida.

Não foi fácil. Cada dia era um tijolo a ser colocado no grande vão que era o terreno da sua alma. A casa ainda não tinha cor, os móveis já estavam lá, mas não se podia usá-los. Sua ansiedade em poder desfrutar da casa era imensa, mas ao mesmo tempo, ela sentia que nunca chegaria a vê-la pronta um dia. Talvez passasse a vida toda a tentar construir, e lhe faltasse moradores.

Isso não importava mais. A vida era um grande presente, e ela já tinha provado a si mesma que era possível destruir muitos medos. Tudo dependia dela, e agora ela tinha um sentido pra se reerguer.

Um comentário:

  1. Que lindo.
    Seu texto me passou uma esperança pra continuar também.
    Me achei nas suas linhas :)

    Beijooos

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